Reflexões

O que precisamos reconstruir em nós com os impactos da pandemia do coronavírus?

Todos já ouvimos falar muito em banalização da vida. Mas nunca sentimos tanto com a banalização da morte, como se vida e morte fossem algo simples, tão simples quem nem nos importamos mais. O inimigo invisível está se hospedando no nosso semelhante e se o semelhante morrer, de certa forma nos importamos menos, porque será um inimigo a menos. A que ponto chegamos! Triste constatação.

Chegamos na cruel encruzilhada que nos amedronta porque estamos perdendo a direção do rumo, do sentido da vida e consequentemente da morte também. Estamos nos dando conta de que não sabemos como será o amanhã e isto nos causa muito medo e pânico. Temos a sensação de que estamos morrendo cada dia um pouco mais, mesmo se não estivermos infectados com o vírus do covid-19.

Enquanto a morte bater na porta do outro, ainda permanecemos razoavelmente tranquilos. Ainda não nos damos conta que até o ritual da morte e da partida mudou. Como elaborar a morte de familiar ou amigo ou amiga vítima de covid quando sabemos que padecem na solidão das UTIS mesmo com todos os cuidados das equipes de saúde? Isto, quando conseguem acessar o direito à saúde.

Como elaborar a morte quando nos damos conta de que não há direito a extrema unção, conforto espiritual, rito de despedida? O ritual de despedida não é para o morto, é para quem fica. O morto não precisa de ritual pois a missão dele segue para outra dimensão. Agora é ele e Deus!

Quando penso que voltamos a ter o mesmo número de mortes que tivemos durante o ápice da pandemia vítimas de covid-19, e na forma como são feitas as despedidas, penso naqueles que ficam. Penso na dor invisível, na ferida não palpável, na tristeza da alma, no coração que sangra.

A cada dia vemos que a morte está sendo banalizada quando não estamos cuidando da vida, nem da minha e nem a dos outros. A morte está sendo banalizada quando fazemos pouco caso da condição de estarmos vivos. A morte está sendo banalizada quando não estamos nem aí para os riscos de contaminação. A morte está sendo banalizada quando ela simplesmente se apresenta como um rompimento da vida como se a vida não representasse nada.

Vivemos num contexto em que a finitude da vida precisa ser compreendida, mas antes se faz necessário viver a vida em sua plenitude o que confirma os significados de estarmos aqui. Todos nascemos para a vida e a vida se alegra com a nossa existência a ponto de nos dar a possibilidade de nos posicionarmos diante da maioria dos desafios que ela nos coloca como crescimento pessoal.

E assim, a vida é um instante no tempo que é o ontem, o hoje e possivelmente o amanhã. E assim nos tornamos eternos nesta desafiadora arte de saber viver para dignamente um dia morrer. Vivemos para morrer. Morremos para viver. Cuidemos da vida e cultivemos o respeito à morte.  Nada se acaba como se tudo tivesse que ter fim.  O fim não existe.

O que estamos aprendendo com tudo isto e o que precisamos reconstruir? A vida é uma constante busca do humano e do divino que habitam em nós. Não somos nada além disto independente das nossas crenças. Ninguém se suporta só como matéria do nascimento até a morte. Tudo nos conduz à transcendência e ali está o fundamento dos sentidos de todas as nossas vidas.

Como humanos somos apenas seres que não nos bastamos. Em busca da luz, somos guiados e conduzidos e quando menos esperamos, nos conectamos pela transcendência na divindade que nos acolhe, nos fortalece e nos guia. Consequentemente, precisamos reconstruir em nós o compromisso com a vida para quem dela precisa; cura para quem está em sofrimento; luz para quem precisa abrir os olhos; serenidade para quem precisa desacelerar; harmonia para quem está em conflito; paz para quem precisa de silêncio; esperança para quem precisa sonhar; fé para quem precisa crer; espiritualidade para quem só crê na matéria; alegrias para quem só conhece tristezas; projetos para quem precisa crescer!

A vida precisa ser refletida e pensada, ao contrário, seremos apenas seres vivos. Quando corpo, mente e espírito marcam encontro e provocam um profundo e saudável silêncio, é a certeza de que a vida deseja continuar pulsando. Talvez um dos maiores aprendizados seja a consciência de que precisamos de mais silêncio. Nossas mentes gritam muito! O mundo grita muito! A humanidade está precisando gritar, mas também precisamos descobrir a importância do silêncio e da reconstrução da vida em todos os sentidos.

Sugestão de leitura

Francisco Arseli Kern

Francisco Arseli Kern

Coordenador de Graduação do Curso de Serviço Social da Escola de Humanidades da PUCRS